Clubes brasileiros retiram marcas de apostas das camisolas e procuram novos patrocinadores
A proibição da publicidade das casas de apostas no Brasil obrigou vários clubes da Série A a retirar os principais patrocinadores das camisolas, abrindo uma corrida por novas receitas comerciais.
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Colaborador
O Campeonato Brasileiro regressou esta semana com uma transformação visível nos equipamentos das equipas. Marcas de empresas de apostas desportivas, que até recentemente ocupavam os espaços publicitários mais valorizados das camisolas, desapareceram dos uniformes de vários clubes, na sequência de uma medida provisória adoptada pelo Governo brasileiro.
A decisão afecta directamente o modelo de financiamento do futebol no país. Dos 20 clubes que disputam a Série A, 14 apresentavam empresas de apostas como patrocinadoras principais, segundo um levantamento divulgado pela imprensa brasileira.
A medida provisória, publicada no final de Setembro, estabeleceu o dia 5 de Outubro como prazo para a retirada das marcas publicitárias do sector, determinando igualmente restrições à actividade das plataformas de apostas a partir do dia seguinte.
O impacto tornou-se particularmente evidente na 29.ª jornada do Brasileirão, disputada entre quarta e quinta-feira, 7 e 8 de Outubro, quando vários clubes entraram em campo com novos patrocinadores, marcas alternativas ou espaços publicitários vazios.
Segundo a Folha de S.Paulo, as alterações foram realizadas num período curto, obrigando os departamentos comerciais e os fornecedores de equipamentos a adaptar rapidamente os materiais utilizados pelas equipas.
Corinthians encontra solução temporária; Grêmio deixa camisola sem patrocinador principal
O Corinthians foi um dos clubes que conseguiu substituir rapidamente a marca anteriormente exibida na parte frontal da camisola.
A empresa Esportes da Sorte deu lugar à Jota.ai, uma plataforma tecnológica ligada à gestão financeira, no encontro diante do Internacional, realizado na quarta-feira.
O acordo foi anunciado como uma solução pontual. De acordo com a CNN Brasil, o Corinthians pretende explorar comercialmente o espaço principal da camisola nos próximos jogos, enquanto procura uma alternativa de maior duração.
O Grêmio adoptou uma estratégia diferente. Sem um substituto imediato para a marca de apostas, entrou em campo diante do Remo com o espaço destinado ao patrocinador principal vazio.
No mesmo encontro, o Remo promoveu o Banpará, que já integrava a sua carteira de parceiros, para uma posição de maior destaque no uniforme.
O Cruzeiro também retirou a Betnacional e apresentou a camisola sem uma nova marca no espaço principal.
As diferentes decisões ilustram as dificuldades enfrentadas pelos clubes para substituir, num prazo reduzido, contratos que representavam receitas comerciais importantes.
Botafogo e Vasco utilizam camisolas para promover programas de sócios
No Rio de Janeiro, Botafogo e Vasco aproveitaram a alteração para divulgar iniciativas próprias.
O Botafogo retirou a marca Vbet e passou a promover o programa de sócios «Camisa 7», enquanto o Vasco substituiu a Sportingbet pela divulgação do «Sócio Gigante».
A estratégia permite manter o espaço publicitário ocupado e, simultaneamente, reforçar a ligação comercial com os adeptos.
O São Paulo, por sua vez, passou a apresentar a marca Superscore, uma plataforma de estatísticas pertencente ao mesmo grupo empresarial da Superbet, anteriormente exibida na camisola.
A solução demonstra que alguns clubes procuram preservar relações comerciais existentes através da divulgação de produtos diferentes das plataformas de apostas. A conformidade destas alternativas com as novas regras continua, contudo, sujeita ao enquadramento jurídico aplicável.
Patrocínios superiores a mil milhões de reais ficam sob pressão
O impacto económico da decisão poderá ser significativo.
Segundo dados citados pela agência Reuters, os patrocínios de empresas de apostas geraram aproximadamente mil milhões de reais para os clubes brasileiros em 2025.
A importância destas receitas varia de clube para clube. Algumas equipas apresentam maior dependência dos contratos de patrocínio principal, enquanto outras dispõem de fontes mais diversificadas, incluindo direitos televisivos, transferências de jogadores, bilhética e programas de sócios.
O problema imediato não se limita à retirada das marcas das camisolas. A suspensão da publicidade também afecta campanhas digitais, painéis nos estádios, acções promocionais e outros compromissos comerciais associados aos contratos.
Os clubes terão agora de encontrar parceiros capazes de oferecer condições financeiras próximas das anteriormente asseguradas pelas empresas de apostas.
A substituição poderá, porém, revelar-se difícil, sobretudo porque os contratos do sector atingiram valores elevados nos últimos anos.
Clubes contestam decisão e aguardam definições judiciais
A medida provocou reacções de dirigentes desportivos e representantes da indústria de apostas.
Durante os encontros do Brasileirão, painéis publicitários exibiram mensagens de contestação à proibição, numa campanha organizada por associações do sector.
Os representantes das empresas argumentam que a medida poderá reduzir investimentos no futebol e favorecer operadores clandestinos. O Governo brasileiro, por outro lado, justifica a intervenção com a necessidade de combater os problemas associados ao crescimento das apostas online, incluindo o endividamento das famílias.
A controvérsia também chegou aos tribunais.
Empresas do sector apresentaram recursos judiciais, enquanto os clubes acompanham as decisões que poderão determinar a continuidade ou a suspensão definitiva de determinados acordos comerciais.
Importa esclarecer que a retirada das marcas não significa necessariamente a rescisão automática de todos os contratos. Em vários casos, os acordos permanecem juridicamente em discussão ou com a sua execução suspensa.
Tecnologia, sector financeiro e indústria automóvel ganham espaço
A mudança poderá acelerar a entrada de empresas de outros sectores no futebol brasileiro.
Um estudo do Ibope, divulgado nesta quinta-feira, 8 de Outubro, identificou o crescimento da presença de marcas automóveis, sobretudo fabricantes chineses de veículos eléctricos, entre os patrocinadores do futebol brasileiro.
O levantamento também aponta para o aumento da participação de empresas financeiras, ao mesmo tempo que o sector de apostas perde espaço.
A tendência sugere que os clubes terão de apresentar propostas comerciais mais abrangentes, capazes de oferecer aos patrocinadores benefícios para além da exposição das marcas nas camisolas.
Experiências digitais, programas de fidelização, conteúdos exclusivos, activações nos estádios e acesso a comunidades de adeptos poderão ganhar importância nas negociações.
Para os clubes brasileiros, a transformação representa simultaneamente um risco financeiro e uma oportunidade para diversificar as fontes de receitas.
O desafio imediato será substituir os valores perdidos sem comprometer os orçamentos desportivos. A médio prazo, a nova realidade poderá alterar profundamente a relação entre o futebol brasileiro e os seus principais investidores comerciais.
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Sobre o autor
Paulo Massunda