Teixeira Cândido alvo de espionagem com sistema de vigilância digital
Trata-se de um sistema desenvolvido e comercializado pela empresa Intelexa.

Nilwa António
Jornalista & Editor Chefe
O jornalista angolano Teixeira Cândido foi alvo de espionagem através da ferramenta ‘Predator’, um sofisticado software de vigilância digital.
A revelação consta de uma investigação técnica da Amnistia Internacional, que identificou um ataque informático contra o também jurista, e trata o assunto como sendo o primeiro caso de espionagem com recurso ao ‘Predator’ confirmado em Angola.
O sistema, criado pela empresa Intelexa, é capaz de aceder a todos os dados armazenados ou transmitidos pelo telemóvel infectado, incluindo mensagens encriptadas, e-mails, palavras-passe, dados de localização e até activar remotamente o microfone e a câmara do dispositivo.
De acordo com a gestora de operações do laboratório de segurança da Amnistia Internacional, a infecção pode ocorrer através do clique em ligações fraudulentas ou do acesso a redes que direccionam para páginas disfarçadas.
A organização indica então que, embora este seja o primeiro caso confirmado no país, existem indícios de que a ferramenta esteja a ser utilizada em Angola desde o início de 2023, sobretudo contra jornalistas, activistas e opositores políticos. Casos semelhantes já foram identificados apenas no Egipto, Grécia e Paquistão.
Colaboração com organizações locais permitiu detecção
A detecção do ataque resultou de uma colaboração iniciada em 2025, entre a Amnistia Internacional e organizações locais, como a Friends of Angola e a Front Line Defenders, com o objectivo de identificar defensores de direitos humanos em risco.
Um comunicado da organização recorda ainda que Teixeira Cândido, antigo secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, tem sido alvo de intimidação desde 2022, inclusive na sede da instituição que liderou durante cerca de seis anos.
Por conta disso, a Amnistia apela para maior vigilância digital, recomendando a verificação da legitimidade de sites e a actualização regular do software dos telemóveis para prevenir ataques semelhantes.
Teixeira Cândido relata ocorrência
Numa entrevista de rádio, Teixeira Cândido explicou que o relatório da Amnistia confirma que o seu telemóvel foi infectado em Maio de 2024.
Segundo o jornalista, o processo começou quando foi contactado por um perfil desconhecido, não identificável, que se apresentou como integrante
de um grupo de estudantes com um projecto para o qual solicitava a sua opinião. Inicialmente, Teixeira não acedeu ao ficheiro partilhado.
Nos dias seguintes, o mesmo contacto enviou diversos links, supostamente de sites de informação, convidando-o a abri-los, incluindo conteúdos relacionados com bolsa de valores. A infecção poderá ter ocorrido através de um desses links, admite o jornalista. Quanto à eventual autoria do ataque, afirma não existirem provas conclusivas, mas declara que a principal suspeita recai sobre o Governo.
Teixeira Cândido recordou que, em 2023, a Amnistia Internacional denunciou que o Governo angolano teria adquirido o ‘Predator’ à Intelexa. O jornal português Expresso noticiou o caso na altura e procurou uma reacção oficial do Executivo angolano, que não respondeu. “O certo é que o ‘Predator’ que se dizia que o Governo de Angola tinha adquirido foi encontrado no meu telemóvel. Não temos como não suspeitar que tenha sido uma instituição do Estado a promover esta espionagem”, reforçou.
Para o jurista, trata-se de “mais um acto de violação da intimidade da vida privada e dos direitos dos cidadãos”, sublinhando que são precisamente as instituições do Estado, criadas para garantir segurança e tranquilidade, que estariam a invadir direitos fundamentais.
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