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António Eduardo
Sociedade

Idiossincrasia cultural narcisista entre nós?

António EduardoColaborador
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Angola precisa de se compreender, a fim de construir visões promissoras e desconstruir visões ultrapassadas. Uma idiossincrasia cultural narcisista não é compatível com os princípios e valores republicanos.

Idiossincrasia cultural narcisista entre nós?

Um povo pode reflectir sobre os traços predominantes na sua cultura. Entre nós, angolanos, é oportuno que os psicólogos explorem teorias científicas robustas sobre os traços de um indivíduo ou grupo narcisistas. A nossa sociedade precisa de se compreender, a fim de construir visões promissoras e desconstruir visões ultrapassadas. Não somos uma ilha, antes num mundo globalizado. Não significa isto que os povos sejam “farinha do mesmo saco”, sem identidade própria, sem particularidades. Cada povo é um povo, que pode contribuir para o desenvolvimento da Humanidade, com os seus valores mais nobres, e pode sofrer influências de outros povos, claro, de preferência influências positivas que não aprisionem, antes, pelo contrário, desabrochem, expandam as capacidades dos seus membros. Ser um Estado que cria condições para que os seus cidadãos sejam altamente qualificados, que as famílias sejam um espaço para verdadeiramente educar para a vida pública com valores altruístas, educar cidadãos que aprendam a conhecer desde a tenra idade o que seja a dignidade humana, educar para o comprometimento pela pátria, por um patriotismo sem viés ideológico narcisista; educar para uma cultura humanista, que não deixa ninguém para trás, antes, nos diferentes estratos sociais haja dignidade humana e sentimento de pertença, de lutar por uma Angola que se apresenta ao Mundo com cidadãos altamente competitivos, não para se mostrar melhor do que os outros, mas tão-somente como cidadãos que podem contribuir para o desenvolvimento holístico da Humanidade.

No lugar-comum sustenta-se que um indivíduo narcisista apresenta um padrão de comportamento caracterizado por grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia. Ora, esse comportamento quando seja colectivo (de um grupo), funda-se, entre outros traços, (a) superioridade grupal com a crença irracional em que seu grupo é superior aos demais; (b) repulsa à autocrítica, revelando uma incapacidade de reconhecer erros históricos, falhas morais dos seus comportamentos; (c) busca de validação externa – um grupo que exige que outros grupos reconheçam constantemente a sua grandeza. Olhando para a nossa realidade social, está em construção uma idiossincrasia cultural narcisista em Angola? Idiossincrasia é uma característica de comportamento, uma maneira particular de pensar, ou uma mania exclusiva de uma pessoa ou de um grupo. Aqui os antropólogos têm autoridade para trazerem contribuições de reflexão, pois, nós os angolanos precisamos de nos compreender e identificar o que de facto nos coloca numa situação de precariedade generalizada. A qualidade de vida dos angolanos não se deve avaliar pela minoria abastada, quando a grande maioria está numa situação de pobreza, mesmo aos olhos de quem diz ser melhor para os destinos da Nação.

Estamos em tempos complexos. A forma como várias gerações consomem, diariamente e de forma subliminar, ideias feitas, práticas e comportamentos tidos como legítimos, veiculados oficialmente através dos órgãos de comunicação social, sem permitir o contraditório nem o debate plural que se impõe, não há dúvidas de que vai moldando quem não pode criticar racionalmente o conteúdo veiculado. Não ousar criticar, em Angola, transformou-se no nosso modus Vivendi. Desde 1975, a tendência é obrigar que a sociedade inteira esteja alinhada ao partido ou grupo que está no poder (com a sua “uma só ideia para todos os angolanos”, reforçada em 1977). Isto é, incondicionalmente considerar verdadeiras e irrefutáveis as posições políticas do grupo dirigente. Ainda que adoptem uma conduta dissimulada em abandonar uma visão de sobrepor os órgãos do partido sobre os do Estado, porque essa linha de pensamento continua viva, a mesma essência do partido único anterior a 1991, pois pelos seus frutos os conhecereis. Tenta-se dissimular, mas se revela ou se manifesta nas propostas legislativas e nos actos de cerceamento dos direitos e liberdades fundamentais, quer dizer, constitucionalmente consagrados. No contexto da sociedade, essas ideias que se moldam como cultura e sedimentadas em comportamentos que mais educam para um mindset (mentalidade) fixo em detrimento do mindset (mentalidade) de crescimento, independentemente das características das gerações que definem as sociedades hodiernas, amplamente estudadas.

1.     Geração Baby Boomer: 1946–1964: caracteriza-se pela vasta experiência acumulada, mas pode enfrentar dificuldades em se adaptar às inovações tecnológicas. Frequentemente demonstram resistência a mudanças rápidas, preferindo abordagens lineares e estruturadas.

2.     Geração X: 1965–1980: Os indivíduos desta geração valorizam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Demonstram independência, pragmatismo e flexibilidade no trabalho, onde preferem uma abordagem colaborativa, mas com autonomia nas decisões

3.     Geração Y ou Millennials: 1981–1996: Uma geração que cresceu durante a globalização, o boom da internet e crises económicas que influenciaram as suas expectativas e prioridades. Por isso, valorizam flexibilidade, propósito no trabalho e diversidade nos ambientes organizacionais. São caracterizados tecnologicamente habilidosos, pois adaptam-se facilmente a inovações digitais.

4.     Geração Z: 1997–2012: Nativos digitais, por excelência, cresceram imersos num mundo conectado, com acesso a smartphones, redes sociais e inteligência artificial. Estes “Z” são talhados em multitarefas, inovadores, rápidos na adopção de novas tecnologias e demonstram forte consciência social e preferem autenticidade nas suas interacções.

5.     Geração Alpha: 2013 em diante. Nascidos num mundo altamente tecnológico, com inteligência artificial como parte de suas rotinas, estão crescendo sob a influência de uma sociedade mais conectada.

Essas diferentes características das gerações tornam insustentável quaisquer práticas que apostem na mitigação da democracia interna do próprio grupo (Partido), e muito mais insustentável na coabitação dos cidadãos à luz dos princípios e valores republicanos.

Não sendo o narcisismo uma ideologia política em si mesmo, o facto é que se trata de um traço psicológico da personalidade que se manifesta na forma como certos líderes e grupos exercem o poder. Pois caracteriza-se por uma necessidade extrema de admiração, revelando não só uma visão exacerbada da própria importância, mas também uma notável falta de empatia e respeito pelos outros membros do grupo, que não passam de meros instrumentos de legitimação de poder. No contexto angolano, a adopção regular desse comportamento, no âmbito político, isto é, através de diversos mecanismos e dinâmicas (ainda que artificiais, forçando a alteração aos estatutos, para dar aparência de unidade e coesão partidária), com a finalidade de impedir a pluralidade de ideias, só expõe a personalidade de quem julga ser admirado e apoiado. Os militantes nunca publicamente podem emitir uma opinião contrária à do “líder”. Dito doutro modo, a ideia de quem é detentor do poder vincula incondicionalmente a todos os militantes que queiram ter paz dentro do Partido ou manter os cargos na estrutura do Estado. Ora, não é normal que um líder partidário tenha pretensões de “comandar” a vida do Partido, a todo o custo, impedindo que outros possam concorrer, não ser capaz de se autolimitar, antes esperar que seja forçado a abandonar o cargo pelas limitações da natureza humana: doença grave ou morte natural! E todos aceitam-no incondicionalmente. Isso é mau exemplo para a Sociedade! E mais: os órgãos de comunicação social públicos só devem veicular as ideias esboçadas pelos órgãos do Partido, e não as dos membros insubmissos que manifestem uma opinião diferentes, pois são conotados com “ambição desmedida”, por ousarem disputar o poder com o chefe! Isto é ou não uma idiossincrasia cultural narcisista?

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Nota de Opinião

O presente texto corresponde a um artigo de opinião e reflecte exclusivamente a visão do seu autor. O Portal Noticiário publica este conteúdo no âmbito da pluralidade de ideias e do debate informado, não assumindo como suas as opiniões aqui expressas.

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