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Inflação a descer, preços a subir: o paradoxo que confunde os angolanos

Luindula António Chaves Miguel Colaborador
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Inflação a descer, preços a subir: o paradoxo que confunde os angolanos

Luindula Miguel_Economista

Foto: DR

A estabilidade de preços é um dos principais pilares de qualquer economia saudável. Quando os preços se tornam instáveis, os agentes económicos, como famílias, empresas e o próprio Estado, perdem a capacidade de planear o consumo, o investimento e a poupança. Em Angola, a inflação tem sido uma preocupação recorrente de toda a sociedade.

“Reduzir a taxa de inflação não é o mesmo que reduzir os preços. Compreender esta diferença é essencial para interpretar os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e avaliar a real situação económica dos preços no país”.

A estabilidade de preços é um dos principais pilares de qualquer economia saudável. Quando os preços se tornam instáveis, as famílias, as empresas e o próprio Estado enfrentam sérias dificuldades para planear o consumo, o investimento e a poupança. Em Angola, a inflação tem sido uma preocupação recorrente para todos os agentes económicos e a incompreensão em torno dos seus dados, uma fonte constante de debate.

Com frequência, ouve-se nas ruas e nas redes sociais uma indignação que mistura legítima preocupação com um equívoco conceptual: Como é que o INE divulga uma redução da inflação se os preços no mercado continuam a subir? Estes dados estão errados.” A reação é compreensível. Mas a interpretação está errada.

"A redução da taxa de inflação não significa, em momento algum, uma redução dos preços. É uma confusão que tem custos económicos e políticos."

O que diz realmente uma taxa de inflação mais baixa

Quando o INE anuncia que a taxa de inflação homóloga desceu, está a informar que os preços continuam a subir, mas a um ritmo mais lento do que no período anterior. Para ilustrar este ponto com clareza, considere o seguinte exemplo:

Um bem custa 100 kwanzas no primeiro mês. No segundo mês, passa a custar 110 Kz, uma subida de 10%. No terceiro mês, o preço sobe para 115 Kz. O crescimento face ao mês anterior foi de apenas 4,5%. A inflação reduziu. Mas o bem ficou mais caro, não mais barato.

Este fenómeno tem nome próprio na ciência económica: desinflação. Trata-se da redução da taxa de crescimento dos preços, um cenário em que os preços ainda sobem, mas a um ritmo progressivamente mais lento. Não é deflação. Não é descida de preços. É, ainda assim, uma melhoria.

Só quando a taxa de inflação se torna negativa, ou seja, em cenário de deflação, é que os preços efectivamente descem. A deflação pode parecer boa notícia para o consumidor no imediato, mas é geralmente prejudicial para a economia a longo prazo, podendo travar o investimento e o consumo.

O país está a melhorar, ainda que o bolso não o sinta

Os angolanos pagam hoje mais do que pagavam há um ano, isso é inequívoco. Mas pagam progressivamente menos do que pagariam se a tendência de desinflação não estivesse em curso. O benefício real desta trajectória ainda não é palpável para a maioria dos cidadãos, mas a direcção é positiva.

Se a inflação continuar a diminuir, pode afirmar-se, com base nos dados disponíveis, que a economia nacional está no caminho certo. Compreender esta distinção não é apenas uma questão académica, é uma condição necessária para um debate público mais informado e para melhores decisões  individuais e colectivas.

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Nota de Opinião

O presente texto corresponde a um artigo de opinião e reflecte exclusivamente a visão do seu autor. O Portal Noticiário publica este conteúdo no âmbito da pluralidade de ideias e do debate informado, não assumindo como suas as opiniões aqui expressas.

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