Luanda, Angola
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Luindula António Chaves Miguel
Economia

Um Banco Central não tem conta bancária em moeda local. Nem precisa!

Luindula António Chaves Miguel Colaborador
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Um Banco Central não tem conta bancária em moeda local. Nem precisa!

Foto: DR

Se o Banco Central cria a própria moeda, não precisa de a ter depositada em nenhuma outra instituição antes de a usar.

Suponhamos que faças uma pergunta a um amigo economista: "Onde é que o Banco Nacional de Angola (BNA) guarda o seu dinheiro? Quando paga alguém, de onde tira as notas?". E ele te responde: "de lado nenhum”. A resposta é surpreendente, confusa e curiosa. Porém, a resposta do economista não foi dada por descuido. Ele está certo, porque um Banco Central não guarda a moeda nacional, cria-a. “E é exactamente por isso que também não precisa de ter conta em nenhum banco comercial".

“O Banco Central não "tira" dinheiro de lado nenhum: ele escreve-o”

Quando um banco central como o BNA, por exemplo, paga a uma empresa, a um fornecedor do Estado, ou a qualquer agente económico que não seja um banco, a ideia que vem à cabeça das pessoas é a de um cofre a abrir-se e notas a saírem.

Mas, não é assim que funciona e nem poderia ser, porque a esmagadora maioria do dinheiro que circula na economia nunca existiu em papel. O que acontece, na prática:

O Banco Central regista, numa conta, daquela empresa, ou do agente económico (através do seu banco), um valor monetário indicando que o mesmo passou a ter mais dinheiro. É um lançamento contabilístico, um número que aumenta e não a movimentação de notas físicas de um cofre para outro.

“É esse lançamento que é o dinheiro”. Não há um "depósito de notas" à espera para ser usado. A moeda nacional, na sua forma mais fundamental, nasce exactamente nesse gesto de registar o pagamento.

O Bank of England, num artigo hoje clássico sobre este tema, resume a ideia central afirmando: a forma como a moeda é criada é frequentemente mal compreendida, porque os bancos não se limitam a emprestar depósitos que os clientes depositantes lhes confiam, o crédito e o dinheiro nascem em simultâneo, no acto de conceder o empréstimo[1].

O mesmo princípio, na sua forma mais pura, aplica-se ao Banco Central: “pagar é escrever, não é entregar algo já existente!”

Uma comparação que ajuda: o marcador de pontos, não o banco de fichas.

Imagine um jogo de basquetebol em que alguém é responsável por manter o placar. Sempre que um jogador marca um ponto, essa pessoa não vai buscar uma ficha física a um armazém. Ela escreve o número novo no placar. O placar não fica "sem pontos para dar". Os pontos existem porque são atribuídos, não porque estão guardados algures à espera.

O Banco Central, quando paga em moeda nacional, está nessa posição do responsável por manter o placar: não é como um caixa que entrega notas de uma pilha limitada, é como quem tem a caneta do placar. Ao pagar, cria o registo, e esse registo é, ele próprio, o dinheiro.

E por isso não precisa de conta em nenhum Banco Comercial

Se o Banco Central cria a própria moeda, não precisa de a ter depositada em nenhuma outra instituição antes de a usar. Pense no sistema financeiro como uma pirâmide de quatro andares: no topo, o Banco Central, depois o Tesouro Nacional, depois os Bancos Comerciais, que mantêm contas de reservas no Banco Central para se pagarem entre si; e na base, Famílias e Empresas, que usam contas nos bancos comerciais no dia a dia.

A pirâmide acima ajuda a perceber uma segunda distinção, tantas vezes confundida: a diferença entre reservas bancárias e circulação monetária.

Os dois primeiros andares de cima movimentam-se no espaço das reservas bancárias: o dinheiro que ali circula existe apenas como registo contabilístico entre instituições, nunca "sai" fisicamente para a economia.

Os dois andares de baixo é que fazem circular a moeda que efectivamente compramos, vendemos e guardamos.

Cada andar liquida-se através do andar acima, excepto o topo. O Banco Central não tem para onde "subir", porque é ele o ponto de onde todos os saldos nascem.

·         Apesar de não ser necessário, há bancos centrais com contas em bancos comercias?

Há sim bancos centrais que têm contas em bancos comerciais. Porém deve se dar nota que é por razões operacionais, não monetárias.

Ou seja, quando isso acontece, não é porque o Banco Central precisa desse dinheiro para poder pagar algo. É por razões de logística, gestão de liquidez do sistema, ou histórico institucional. Vejamos exemplos concretos.

Um exemplo concreto e mais documentado é o Tesouro dos EUA e as contas "Treasury Tax and Loan" (TT&L). Embora seja tecnicamente o Tesouro (não a Reserva Federal em si), durante décadas, o Tesouro americano manteve a maior parte do seu saldo operacional não na sua conta na Fed, mas espalhado por milhares de contas TT&L em bancos comerciais.

A razão é que quando Tesouro recebe impostos e deposita esse dinheiro na sua conta no Banco Central, esse movimento retira reservas do sistema bancário de um dia para o outro, o que pode fazer disparar as taxas de juro interbancárias. Porém, se se mantiver o dinheiro "estacionado" em contas nos próprios bancos comerciais em vez de o centralizar de imediato no Banco Central, evita-se esse choque brusco, o que ajudava a prevenir grandes flutuações na oferta de reservas bancárias, importante para a estabilidade das taxas de juro do mercado monetário.

Portanto, a conta não existe porque o Tesouro "precisa" de guardar dinheiro num banco comercial antes de gastar, existe para gerir o efeito que os movimentos do governo têm sobre a liquidez do sistema bancário. É uma ferramenta de afinação, não uma necessidade de financiamento.

Por que é que isto não significa "pode pagar tudo sem limite"

Aqui é essencial ser cuidadoso, para não nos induzirmos a uma conclusão perigosa.

O facto de o Banco Central poder sempre criar o registo de um pagamento em moeda local não é o mesmo que não haver limites. Se o volume desses registos crescer mais depressa do que a capacidade da economia real de produzir bens e serviços, o resultado é inflação, isto é, mais moeda a perseguir a mesma quantidade de coisas.

“A verdadeira restrição não está em "ter ou não ter dinheiro" para pagar, está nos efeitos que criar esse dinheiro tem sobre preços, taxa de câmbio e confiança na moeda.”

E para moeda estrangeira, então?

Aqui está a nuance importante, que evita simplificar demais: quando se trata de moeda estrangeira, dólares, euros. por exemplo, a história muda.

Nessas moedas, o Banco Central como BNA não é o emissor. É apenas mais um participante do sistema financeiro internacional. Por isso, para gerir as reservas internacionais, mantém sim contas em bancos correspondentes no estrangeiro.

Isso não contradiz o princípio, pelo contrário, confirma-o: “só se precisa de uma conta num banco quando não se é o emissor da moeda em causa.”

Em suma, a pergunta "onde é que o Banco Central guarda o seu dinheiro?" parte de uma premissa errada “de que o dinheiro é uma coisa a ser guardada, e não um registo a ser escrito”.

Um Banco Central não precisa de conta em moeda nacional pelo mesmo motivo que o marcador de um jogo não precisa de um armazém de pontos: ele não distribui algo finito, ele atribui algo que só existe porque é atribuído. Isto não é uma curiosidade técnica sem consequência, é o ponto de partida correcto para qualquer debate sério sobre política monetária.

Confundir a posição do topo da pirâmide (quem cria a moeda) com a posição da base (quem a usa) é o que alimenta a ideia errada sobre a forma como um Banco Central faz pagamentos aos agentes económicos. É nesse terreno, e não no da "falta de dinheiro", que a discussão sobre finanças públicas e política monetária deveria acontecer.

Compreender esta distinção não é um exercício meramente académico. É a diferença entre debater política económica com clareza sobre o que verdadeiramente limita o país e ficar preso a uma metáfora doméstica que nunca se aplicou à forma como um Banco Central realmente funciona.



[1] McLeay, M., Radia, A. e Thomas, R. (2014), Money Creation in the Modern Economy, Bank of England Quarterly Bulletin, Q1.

 

 

 

 

 

 

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Nota de Opinião

O presente texto corresponde a um artigo de opinião e reflecte exclusivamente a visão do seu autor. O Portal Noticiário publica este conteúdo no âmbito da pluralidade de ideias e do debate informado, não assumindo como suas as opiniões aqui expressas.

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