Demolições no Sequele deixam mais de 500 famílias sem casa; moradores relatam duas mortes
Mais de 500 famílias permanecem ao relento depois de as autoridades demolirem habitações no Sequele, em Icolo e Bengo; as circunstâncias de duas mortes denunciadas pelos moradores ainda carecem de confirmação oficial.
Foto: DR
As demolições ocorreram de forma intercalada entre 22 e 25 de Setembro no denominado Bairro Sequele Zero. José Ngonga, membro da comissão de moradores, disse à Lusa que as forças de defesa e segurança iniciaram a operação sem aviso prévio e que entre as pessoas afectadas se encontram crianças e idosos.
Os moradores atribuem à operação a morte de um recém-nascido e de uma mulher que terá sofrido uma crise de hipertensão, além de dois feridos. Estas mortes são denúncias dos residentes: não foi divulgada qualquer confirmação hospitalar, policial ou médico-legal.
A Administração Municipal do Sequele apresentou uma versão diferente. Num comunicado de 29 de Setembro, afirmou que a intervenção visou “repor a legalidade” numa reserva fundiária destinada a uma zona industrial e sustentou que os ocupantes receberam sucessivos avisos e acções de sensibilização. A administração considera que o espaço não constitui um bairro reconhecido pelo ordenamento territorial.
Os residentes rejeitam a acusação de ocupação ilegal, afirmam possuir documentos e dizem viver no local desde 2018. Deputados da UNITA visitaram as famílias e acusaram as autoridades de violar direitos fundamentais. A Administração do Sequele confirmou ter recebido a delegação, mas declarou que a reunião terminou após momentos de tensão e alegadas agressões verbais — versão contestada pelo partido.
A organização Friends of Angola pediu ao governador de Icolo e Bengo, Auzílio Jacob, uma investigação independente, assistência urgente às famílias e esclarecimentos sobre a participação das forças de segurança. A ONG também reproduziu alegações de moradores sobre apropriação de terrenos, mas não apresentou prova pública que permita confirmar o destino económico das parcelas.
A situação exige uma resposta urgente de protecção civil e assistência social, sobretudo perante o início das chuvas. Além do alojamento temporário, permanece por esclarecer se as famílias tinham títulos válidos, se foram respeitados os procedimentos administrativos e judiciais aplicáveis e se haverá indemnização ou realojamento.
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