Luanda, Angola
Ciência

Europa coloca em órbita satélite capaz de detectar “brilho” invisível das plantas e medir stress da vegetação

O FLEX vai observar directamente a fotossíntese a partir do espaço e poderá revelar sinais de stress nas plantas antes de estes serem visíveis no solo.

Europa coloca em órbita satélite capaz de detectar “brilho” invisível das plantas e medir stress da vegetação

Foto: DR

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Redacção

16 set 2026
5 min de leitura
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A European Space Agency colocou com sucesso em órbita o FLEX, primeiro satélite concebido especificamente para produzir medições globais da fluorescência emitida pelas plantas durante a fotossíntese. O lançamento ocorreu a 15 de Setembro de 2026, juntamente com o novo satélite Copernicus Sentinel-3C, a bordo de um foguete Vega-C a partir do Porto Espacial Europeu, na Guiana Francesa.

Os dois satélites estabeleceram contacto com o centro de controlo depois de serem libertados separadamente do foguete, confirmando que chegaram em segurança ao espaço. As equipas iniciaram agora a fase de verificação dos sistemas antes do começo das operações científicas.

FLEX vai observar algo que os nossos olhos não conseguem ver

Quando uma planta absorve luz solar para realizar a fotossíntese, uma pequena parte dessa energia é novamente emitida sob a forma de fluorescência.

O fenómeno é extremamente ténue e invisível ao olho humano.

O FLEX — Fluorescence Explorer — transporta um instrumento denominado FLORIS, Fluorescence Imaging Spectrometer, suficientemente sensível para detectar esse sinal a partir da órbita terrestre.

A intensidade da fluorescência varia consoante a actividade fotossintética e as condições ambientais enfrentadas pela vegetação. Isso permite aos cientistas utilizar o sinal como indicador da forma como as plantas estão efectivamente a funcionar.

A diferença é importante: muitos satélites conseguem observar como a vegetação parece; o FLEX foi desenvolvido para ajudar a medir como a vegetação está a funcionar fisiologicamente.

Stress poderá ser detectado antes de se tornar evidente

Uma das aplicações científicas mais importantes será identificar alterações na actividade das plantas associadas a calor, seca e outras condições ambientais.

Segundo a ESA, as variações da fluorescência podem fornecer informação sobre a saúde da vegetação e permitir detectar stress antes de os seus efeitos se tornarem aparentes através de observações convencionais.

O satélite deverá produzir os primeiros mapas globais de fluorescência da vegetação com resolução de 300 por 300 metros, permitindo acompanhar sistematicamente a actividade fotossintética em diferentes ecossistemas.

A missão está planeada para operar durante pelo menos três anos e meio, numa órbita situada aproximadamente a 814 quilómetros da Terra.

Uma nova ferramenta para estudar o carbono

A capacidade de observar directamente a fotossíntese tem implicações que ultrapassam a agricultura.

As plantas retiram dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese, transformando-as numa componente essencial do ciclo global do carbono.

Apesar disso, determinar com precisão quanto carbono os ecossistemas terrestres estão efectivamente a absorver continua a ser um desafio científico.

A ESA espera que os dados do FLEX permitam melhorar a compreensão da relação entre fotossíntese, armazenamento de carbono e ciclos da água, além de ajudar os investigadores a estudar como os ecossistemas respondem às alterações ambientais.

Isso poderá melhorar modelos utilizados para compreender a evolução do clima e a resposta da vegetação a secas, ondas de calor e outras condições extremas.

Sentinel-3C também entrou em órbita

O FLEX não viajou sozinho.

No mesmo lançamento seguiu o Sentinel-3C, terceiro satélite da família Sentinel-3 do programa europeu Copernicus.

O Sentinel-3C transporta quatro instrumentos destinados a medir sistematicamente oceanos, superfície terrestre, gelo e atmosfera, fornecendo também dados utilizados em previsões oceânicas e meteorológicas.

Depois da fase de testes em órbita, o novo satélite deverá assumir progressivamente o papel operacional do Sentinel-3A, lançado em 2016, garantindo a continuidade de uma série de observações ambientais que já cobre uma década.

Dois satélites vão trabalhar em conjunto

A combinação das duas missões é particularmente importante.

O FLEX foi concebido para trabalhar em coordenação com a família Sentinel-3. Enquanto o FLEX mede a fluorescência e, portanto, fornece informação sobre a actividade fotossintética, os instrumentos Sentinel podem acrescentar dados sobre temperatura, características da superfície, vegetação e outras variáveis ambientais.

A análise conjunta permitirá aos investigadores relacionar alterações na fotossíntese com as condições enfrentadas pelas plantas.

O resultado poderá ser uma visão muito mais detalhada de como os ecossistemas reagem ao calor, à disponibilidade de água e às mudanças ambientais.

Agricultura também poderá beneficiar

Embora o FLEX seja essencialmente uma missão científica e não um sistema comercial de monitorização agrícola, os conhecimentos produzidos poderão ter aplicações futuras no sector.

Detectar reduções da actividade fotossintética antes de uma cultura apresentar sinais visíveis de deterioração poderá ajudar a desenvolver melhores sistemas de avaliação de seca, produtividade agrícola e stress hídrico.

A capacidade é particularmente relevante para regiões onde a agricultura depende fortemente das chuvas e onde períodos prolongados de seca podem afectar rapidamente a produção alimentar.

Mas será necessário aguardar a calibração dos instrumentos e a validação científica dos dados antes de determinar até que ponto estas aplicações poderão ser transformadas em serviços operacionais.

Por enquanto, o avanço é fundamentalmente científico: pela primeira vez, um satélite dedicado começa uma missão destinada a observar sistematicamente, à escala global, o ténue sinal luminoso produzido pelas plantas enquanto realizam um dos processos biológicos mais importantes do planeta — a fotossíntese.

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Categoria:Ciência

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