Luanda, Angola
Ciência

Vénus pode ter destruído a própria lua e estudo propõe explicação para mistério do Sistema Solar

Um novo estudo conclui que Vénus poderia ter formado uma lua e posteriormente destruído o satélite apenas através da evolução gravitacional do sistema.

Vénus pode ter destruído a própria lua e estudo propõe explicação para mistério do Sistema Solar

Foto: DR

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Redacção

16 set 2026
5 min de leitura
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Vénus pode não ter sido sempre um planeta sem lua. Uma investigação publicada a 14 de Setembro de 2026 no The Astrophysical Journal mostra que um eventual satélite natural do planeta poderia ter entrado progressivamente numa espiral de aproximação até ser destruído pelas forças de maré, sem necessidade de uma colisão catastrófica posterior para explicar o seu desaparecimento.

O trabalho foi liderado pelo astrofísico Stephen R. Kane, da University of California, Riverside, juntamente com Franck Selsis, Jeremy Leconte e Sean Raymond.

A investigação, intitulada “Tidal Demise: The Evolution and Fate of a Hypothetical Venus Moon”, utilizou simulações para acompanhar durante milhares de milhões de anos a interacção gravitacional entre Vénus, o Sol e diferentes configurações possíveis de uma antiga lua.

Simulações revelaram uma lua condenada

Os investigadores testaram luas com massas entre 1% e dez vezes a massa da Lua terrestre, diferentes órbitas e um Vénus primordial com períodos de rotação entre cinco e 100 horas.

Os resultados mostram uma diferença fundamental em relação à Terra.

A Lua terrestre está actualmente a afastar-se do nosso planeta porque a rotação da Terra transfere energia para a sua órbita. Em Vénus, porém, determinadas condições de rotação provocariam a situação inversa.

À medida que o planeta perdesse velocidade de rotação, a posição orbital em que uma lua conseguiria acompanhar exactamente a rotação de Vénus deslocar-se-ia para fora. Ao ultrapassar a órbita do satélite, a interacção das marés passaria a retirar energia à lua.

O resultado seria uma espiral em direcção ao planeta.

Nos modelos utilizados pelos cientistas, determinadas luas acabariam destruídas num intervalo entre aproximadamente 30 milhões e 1,7 mil milhões de anos.

Uma lua particularmente grande não estaria necessariamente mais protegida. Pelo contrário, a investigação mostra que satélites mais massivos podem retirar mais rapidamente energia da rotação do planeta e acelerar as condições que conduzem à sua própria destruição.

Há uma condição em que a lua poderia sobreviver

O estudo não conclui que qualquer lua de Vénus estivesse inevitavelmente condenada.

As simulações encontraram uma região específica em que um satélite poderia permanecer durante a idade do Sistema Solar: Vénus teria de começar com uma rotação rápida, com um dia inferior a aproximadamente 12 horas, e a massa da lua teria de permanecer dentro de determinados limites.

Fora dessas condições, a probabilidade de destruição aumenta.

Os autores consideram que a actual ausência de uma lua pode, portanto, ser explicada exclusivamente através da evolução das marés em determinadas condições iniciais.

Isto elimina a necessidade de assumir que um acontecimento cósmico posterior — como o impacto de outro grande corpo — arrancou uma lua que anteriormente orbitava Vénus.

Mas os cientistas ainda não provaram que Vénus teve uma lua

Esta distinção é essencial.

O estudo não descobriu evidência física de uma antiga lua venusiana. O que demonstra é que, caso uma lua se tivesse formado em determinadas condições, existe um mecanismo físico capaz de explicar naturalmente por que razão ela já não existe.

Kane reconhece que encontrar uma prova observacional directa será difícil porque um satélite destruído há milhares de milhões de anos poderá não ter deixado vestígios facilmente identificáveis actualmente.

Por isso, a formulação cientificamente correcta não é afirmar que “Vénus engoliu a sua lua” como facto estabelecido, mas que as novas simulações tornam esse cenário fisicamente plausível.

A Reuters também destacou esta ressalva ao noticiar o estudo a 15 de Setembro.

O mistério de duas “gémeas” muito diferentes

A questão é particularmente importante porque Venus e a Terra têm dimensões, massas e composições rochosas semelhantes, mas seguiram histórias profundamente diferentes.

A Terra possui uma grande Lua. Vénus não possui qualquer satélite natural.

Vénus também apresenta uma rotação extremamente lenta e retrógrada: demora aproximadamente 243 dias terrestres para completar uma rotação, além de girar no sentido contrário ao da maioria dos planetas.

Compreender se a ausência de uma lua está relacionada com essa evolução pode ajudar os cientistas a reconstruir parte da história inicial do planeta.

E a questão ultrapassa o Sistema Solar.

Descoberta pode ajudar na procura de mundos semelhantes à Terra

Os mesmos princípios físicos podem ser aplicados aos exoplanetas, mundos que orbitam outras estrelas.

Uma lua suficientemente grande pode influenciar a evolução de um planeta durante milhares de milhões de anos. No caso terrestre, a Lua participa na dinâmica das marés e influencia a evolução da rotação do planeta.

O novo estudo sugere que encontrar um planeta rochoso semelhante à Terra não significa necessariamente que esse mundo tenha conseguido conservar uma lua durante toda a sua história.

Planetas de rotação lenta poderão perder satélites que inicialmente conseguiram formar.

Essa informação pode tornar-se relevante à medida que novos telescópios começam a caracterizar mundos rochosos e os cientistas tentam compreender quais sistemas planetários possuem condições mais próximas das encontradas na Terra.

Próximas missões podem procurar pistas

Obter evidência de que uma antiga lua realmente existiu continuará a ser o maior desafio da hipótese.

Missões destinadas a estudar a composição atmosférica e a geologia de Vénus poderão, contudo, fornecer novos elementos sobre a evolução do planeta. Kane integra a equipa científica da missão DAVINCI e também colabora com VERITAS, dois projectos da NASA destinados a aprofundar o conhecimento sobre Vénus.

Por enquanto, a conclusão mais importante é outra: a ausência actual de uma lua em Vénus não significa necessariamente que o planeta nunca tenha tido uma. A própria física orbital oferece agora um mecanismo capaz de a fazer desaparecer.

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